Thursday, 2 August 2012

A menina que morava nos meus sonhos

          A menina que morava nos meus sonhos era bonita. Todas as noites após dormir, eu a visitava, mas essa noite foi diferente. Durante essa noite, ela estava triste e eu não mais conseguia ver através daqueles gentis olhos que sempre me convidavam para uma conversa alegre. Agora, eles estavam amargos e distantes. Não me sentia bem vendo aquela figura simpática sofrer daquele jeito. Me consolei com o fato de que pouco poderia fazer. Pouco poderia fazer e pouco fiz. Tudo que me restou, então, foi um grande vazio que me tomava pouco a pouco, tornando frio e monocromático esse pesadelo incomum.
          Estávamos em uma sala e podia se ouvir o zunido dialético de várias pessoas sem face e sem expressão. Voltei a atenção a minha amiga. Não pude me conter e tentei me aproximar mas ao perceber sua fragilidade, me detive a observá-la com certa discrição. Ela estava um pouco a minha frente, de forma que não perceberia o olhar fixo com que eu a observava. Consegui me convencer e me aproximei um pouco. Ela me olhou. Me aproximei mais e eu a olhei. Ela sabia que eu também estava preocupado. Com um pouco de tempo, consegui distinguir seu sofrimento, certamente era a ausência de uma pessoa, uma pessoa muito querida.
          Nos olhamos fundo nos olhos. Aquele olhar, aquele silêncio, palavra alguma poderia descrever aquele momento. Finalmente, eu descobri o que eu deveria fazer! Nunca havia tentado tamanho feito, sempre fui covarde e uma ideia tão miraculosa nunca me correu pela cabeça. Me aproximei, agarrei-a forte e a beijei! O sangue corria-me o corpo até o chão, que já parecia longe, muito longe para poder se sentir. Ela segurava minha camisa fixamente enquanto compartilhavamos aquele momento único em que não se podia observar nenhuma diferença entre nós. Eramos apenas um, nos transformamos em uma unidade e nunca mais seríamos os mesmos. Larguei-a e ficamos ali parados, estáticos, eu suspirava e a encarava, ela me encarava e suspirava. Ela sorriu e então, por fim, acordei.
          Estava molhado, não conseguia conter minha respiração mas me sentia inacreditavelmente bem, como não acontecia há muito tempo. Passada a euforia, só conseguia me ocupar com uma dúvida. Será que aquela moça me conhecia melhor do que eu imaginava ou será que eu fui, esse tempo todo, uma mera imaginação nos sonhos dela?
          Só me resta uma certeza. A menina que morava nos meus sonhos era realmente muito bonita...